Publicado em 19 maio 2025 • por Maristela Torres Cantadori Amatuzzi •
A ciência não se constrói apenas em laboratórios. Ela também nasce da vivência, da escuta e do saber transmitido entre gerações. Com esse olhar, a Fundect apoia pesquisas que valorizam o protagonismo indígena na pesquisa e na inovação.
Na quarta edição do Programa de Iniciação Científica e Tecnológica do Estado de Mato Grosso do Sul (PICTEC 4), três projetos selecionados são conduzidos por pesquisadores indígenas, que conectam tradição e ciência, reafirmando seus laços com a comunidade e inspirando novas gerações a trilharem caminhos no conhecimento.
As pesquisas são coordenadas por professores do Ensino Médio ou Técnico Integrado de escolas públicas do Estado e contam com o apoio financeiro da Fundect. Cada professor recebe uma bolsa mensal de R$800 e pode orientar até quatro estudantes da mesma escola, que também recebem bolsas de R$400 mensais durante um período de 12 meses.
Uma das pesquisas tem foco na ciência das estrelas. Jovens pesquisadores da Escola Estadual Indígena Cacique Timóteo, zona rural de Miranda (MS), sob a coordenação do professor Jailson Joaquim, desenvolvem o “Guia Didático de Etnoastronomia Terena: uma visão da Aldeia Cachoeirinha”. O trabalho resgata e sistematiza a interpretação do céu feita pelos povos originários, uma das principais formas de ciência desenvolvidas ancestralmente.

Os alunos Alexandre de Arruda, Eloise Barbosa, Gediel Candelario e Mariane Gonçalves reúnem informações sobre constelações como a Ema (Kipâe), o Cervo (Vayáho), a Onça (Sîni), o Cruzeiro (Kurûhu) e a Estrela Grande (Pú´iti Hékere), além de outros conhecimentos importantes preservados entre os anciões da comunidade.
“Os saberes tradicionais, antes transmitidos oralmente com intensidade, vêm se perdendo ao longo do tempo. Ao criar o guia didático, busca-se não apenas documentar esses conhecimentos, mas também torná-los acessíveis e compreensíveis para as novas gerações”, destaca Jailson.
Com o apoio dos anciãos da aldeia, os estudantes farão o registro das informações por meio de áudios, vídeos, anotações detalhadas e transcrição dos relatos para a língua Terena, seguida da tradução para o português. O material bilíngue será organizado em um guia didático que respeite e preserve a essência dos ensinamentos indígenas.
“A pesquisa visa registrar as tradições etnoastronômicas do Povo Terena e inspirar os jovens a manter vivo o legado ancestral, podendo ainda servir como modelo para outras comunidades indígenas na valorização da identidade cultural”, completa o professor.
Também em sintonia com os saberes tradicionais, outro estudo do Pictec 4 está sendo realizado na Escola Estadual Indígena Intercultural Guateka – Marçal de Souza, em Dourados. Ali, jovens cientistas atuam na valorização e manutenção do bioma Mata Atlântica na Aldeia Jaguapirú por meio da criação de um bosque de plantas nativas e frutíferas.
A pesquisa “Manutenção do bioma Mata Atlântica na Aldeia Jaguapirú: A produção de um bosque em uma Escola Indígena” é coordenada pela professora Kamylla Balbuena Michelutti, com apoio da docente Micheli Machado. Os bolsistas Darlan Gonçalves, Eloise Neres, Kleuber Romeiro e Janiele Cavalcante estudam formas de proteger o Meio Ambiente ao analisarem os efeitos do plantio e da diversificação da vegetação na incidência de insetos. O local também poderá servir como banco de espécies para geração de mudas e recuperação dos córregos Jaguapirú e da Aldeia Bororó.

A ideia de criar um bosque surgiu após estudos que identificaram resquícios do ecossistema da Mata Atlântica na região de Dourados.
“Por meio da literatura, confirmamos que esse bioma era anteriormente predominante nessa área. Ele é de suma importância para a manutenção do clima, da vida e da preservação de espécies vegetais-chave desse ambiente, sobretudo nas regiões de nascentes da aldeia”, esclarece Kamylla.
Atualmente, a equipe está na etapa de coleta de armadilhas e triagem dos insetos capturados. Em seguida, será feita a limpeza da área e o plantio das mudas. Entre as espécies nativas que serão cultivadas está o urucum, planta utilizada na culinária e nas pinturas indígenas, reconhecida por suas propriedades medicinais que auxiliam na regulação dos níveis de colesterol, da gordura hepática e no controle da diabetes.
“Pretendemos envolver toda a comunidade escolar, possibilitando a transformação de áreas degradadas e promovendo uma educação com consciência e respeito ao meio ambiente”, reforça a professora.
Ainda na Guateka – Marçal de Souza, outro grupo de bolsistas do Pictec 4 se dedica à criação colaborativa de materiais educativos bilíngues e trilíngues, envolvendo Língua Portuguesa, Línguas Indígenas e Língua de Sinais Brasileira (Libras).
A pesquisa “Produção Colaborativa de Materiais Educativos em Língua Indígena e Línguas de Sinais por Alunos da Rede Pública Estadual” é coordenada por Micheli Alves Machado, com apoio da co-orientadora Rosyane Francisco. Os estudantes Cláudio Duarte, Lucas Hortêncio, Luiz Marques, Wender Oliveira e a aluna voluntária Júlia Morale estão sendo capacitados em tecnologias digitais para desenvolver materiais multimídia voltados a esses públicos.

A pesquisa fomenta a inclusão no ambiente escolar, a preservação das Línguas Indígenas e da Libras, além de fortalecer o protagonismo estudantil e a inovação no processo de ensino-aprendizagem.
“A ausência de materiais didáticos em Línguas Indígenas e em Libras motivou a criação de um estudo colaborativo, com protagonismo dos estudantes na produção de conteúdos trilíngues. Entre os principais desafios estão a escassez de referências nessas línguas, o acesso limitado à tecnologia e a necessidade de integrar diferentes formas de comunicação, oral, gestual e escrita, o que exige sensibilidade cultural, paciência e dedicação de todos os envolvidos”, explica Micheli.
Segundo a professora, um dos objetivos é fazer com que os alunos deixem de ser apenas consumidores e passem a se tornar criadores de conteúdo, despertando maior interesse pela aprendizagem.
“Registrar as línguas em vídeos e jogos fortalece a inclusão e o reconhecimento das identidades culturais e linguísticas na escola. A participação de estudantes surdos indígenas e o apoio de intérpretes e lideranças ampliam o sentimento de pertencimento e promovem o diálogo entre gerações”, finaliza.
Texto: Larissa Adami.
Fotos: Rodrigo Guerra; Acervo pesquisadores.
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